A dimensão social dos acidentes com motociclistas

postado em 4 de abr de 2013 21:13 por Fábio de Cristo   [ 5 de fev de 2015 05:12 atualizado‎(s)‎ ]
Autor: Fábio de Cristo, psicólogo (CRP-17/1296), doutor em psicologia e pesquisador colaborador na Universidade de Brasília, onde desenvolve pós-doutorado sobre o comportamento no trânsito. Administrador do Portal de Psicologia do Trânsito (www.portalpsitran.com.br) e coordenador da Rede Latino-Americana de Psicologia do Trânsito. Autor do livro "Psicologia e trânsito: Reflexões para pais, educadores e (futuros) condutores".
 
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A maneira como as pessoas se locomovem vem se modificando nos últimos anos nas cidades brasileiras, notadamente com o aumento da venda de motocicletas. Para se ter uma ideia, antigamente, no interior, andava-se predominantemente de cavalo, carroça e bicicleta. Hoje, as motos são usadas inclusive para levar o gado do pasto para o curral. Esta mudança para um transporte mais potente e veloz, não raro, é feita sem maiores preocupações pelas autoridades de trânsito e pelos (novos) condutores. É comum, em muitas cidades, conduzir a motocicleta sem se preocupar com a proteção e a segurança.

Muitos jovens têm sido vítimas no trânsito, sendo estimado um aumento de 32,3% no número de óbitos por acidentes de transporte terrestre na última década – 2000 a 2010, segundo um estudo com dados do Ministério da Saúde. A taxa de mortalidade de ocupantes de motocicleta no Brasil, que tem aumentado a cada ano, é uma das responsáveis por este aumento das mortes no geral. Como consequência, causam um prejuízo elevado ao país, devido aos custos envolvidos com internações, cirurgias, medicamentos e afastamentos remunerados do trabalho, para citar alguns. Muito além disso, quando o acidentado sobrevive, ocorrem profundas mudanças na sua rotina e na da família. Mas como evitar tais ocorrências? A matéria abaixo pode ajudar a pensarmos numa possibilidade.  

“Jovem motociclista fica paraplégico após acidente no interior da Paraíba.


Na noite de sábado, Francisco de 19 anos ficou paraplégico após colidir com outra motocicleta num cruzamento da cidade. As duas motos transportavam passageiros acima do permitido, cada uma com três pessoas. Segundo os policiais rodoviários, todas as vítimas estavam sem capacete. Francisco, que pilotava uma das motos, foi encaminhado ao hospital. Sua família está transtornada com a situação do rapaz, que perdeu a sensibilidade e o controle das pernas. Os demais envolvidos no acidente sofreram ferimentos leves.”

(Jornal Popular do Interior, janeiro de 2009) [1].
 
Esse acidente tem coisas bem peculiares que instigam nossa curiosidade, afinal: Por que todos os seis envolvidos estavam sem capacete? Será que transportar mais de duas pessoas na moto é comum nesta cidade? Acidentes assim são uma exceção neste lugar?

Estas perguntas têm a ver com um elemento importante para a promoção da saúde e segurança no trânsito: a análise da dimensão social dos acidentes com motociclistas. A dimensão social, neste caso, significa compreender que parcela dos comportamentos indesejados, inseguros ou de risco pode ser influenciada e mantida pelo grupo, como os outros motociclistas, ou pela comunidade, quer dizer, os moradores de uma cidade.

Isto é possível? Sim. Na cidade de Francisco, na realidade, sair sem capacete é tão comum quanto andar com a família inteira em cima da garupa. Por lá, quem usa capacete é reprovado socialmente, afinal: “aqui não precisa, é tudo pertinho”, “faz muito calor e o capacete abafa pra danado” ou “porque todo mundo anda assim mesmo”, dizem motociclistas e moradores locais.

Parece, então, que as “causas” dos comportamentos dos motociclistas nem sempre estão “dentro” deles, como se costuma pensar (por exemplo, “fulaninho é assim mesmo”, “é ruindade dele” ou “sua índole é má”). Dito de outra maneira, muito do que se passa “dentro de nós” é influenciado por coisas que acontecem “fora de nós”, quer dizer, são construídas a partir da dimensão social. Vejamos isso com mais detalhes...
 
O comportamento do motociclista é fortemente influenciado por sua intenção, isto é, sua motivação para realizá-lo (é algo que está "dentro" da pessoa). A intenção, portanto, é o elemento capaz de explicar melhor o comportamento, a ação. Nesta lógica, concluímos que Francisco não usou o capacete (comportamento) porque ele estava pouco motivado para usá-lo (intenção).

Mas esta intenção, por sua vez, é influenciada por outros três elementos relativos à dimensão social, ou como o indivíduo a interpreta, conforme argumenta uma importante teoria da psicologia, a teoria do comportamento planejado. Os três elementos são: (1) a atitude em relação ao comportamento, (2) a pressão social e (3) o controle percebido sobre o comportamento. Segunda a teoria, podemos planejar nossas ações, se quisermos; mas nossa motivação dependerá em grande parte desses três elementos que citei. Vejamos cada um deles a seguir, tentando aplicar ao caso de Francisco.

A atitude nada mais é do que a avaliação positiva ou negativa que fazemos em relação a alguém ou a alguma coisa. No caso de Francisco, pode ser a avaliação negativa que ele fez em relação ao uso do capacete (pensamentos do tipo “usar capacete é ruim” ou “fica abafado”). Aqui vale uma ressalva: repare que, na psicologia, atitude é diferente de comportamento, ainda que, no senso comum, sejam considerados semelhantes, como quando se diz: “Francisco tomou uma atitude e comprou uma moto!”. Enquanto a atitude é uma inclinação, disposição ou avaliação para se comportar ou não de determinada forma em relação a algo, o comportamento é aquilo que se observa, a ação que a pessoa realiza de fato. Entendido?

A pressão social é o que pensamos que os outros acham que nos devemos comportar. Esses “outros” são pessoas que valorizamos; podem ser outros motociclistas ou moradores da cidade. Geralmente, queremos agir em conformidade com o que eles pensam de nós. Na história de Francisco, é possível supor que ele não se sentiu pressionado a usar capacete, afinal, todos estavam sem a proteção e não o cobraram.

Finalmente, a percepção de controle sobre o comportamento, também influencia a intenção. É o quanto percebemos ter controle sobre o nosso comportamento ou o quão difícil ou fácil é realizá-lo. Por exemplo, se os obstáculos para usar o capacete eram percebidos por Francisco como muito grandes (dificuldades para guardá-lo ou carregá-lo), ele não se esforçaria – ou se esforçaria pouco – para usá-lo.

Mas, como esses elementos – intenção, atitude, pressão social e percepção de controle – podem nos ajudar na prevenção de acidentes com motociclistas? Pode ser útil de diversas formas, como informar e educar as pessoas. Imagine que a secretaria de saúde (ou uma empresa privada ou qualquer instituição) da cidade de Francisco está preocupada com os acidentes de moto e quer diminuir esta incidência. 




O objetivo da secretaria é, portanto, incentivar o comportamento de “usar capacete”. Aplicando a teoria neste caso, primeiramente, é importante identificar o grau de intenção de usá-lo (isto é, será que a motivação de usar capacete é elevada entre os motociclistas da cidade?). Posteriormente, identificar as razões para isso, que são os três principais elementos que influenciam a intenção. Assim, a análise poderia indicar que a intenção é baixa porque a atitude de usar o capacete é negativa, isto é, usar o capacete é avaliado como ruim; além disso, pode revelar que a pressão social para usar o capacete não existe, ou seja, os motociclistas não percebem que as pessoas que lhe são importantes pensam que eles devem usá-lo; e que os motociclistas percebem ter pouco controle sobre o uso do capacete, uma vez que, segundo eles, usá-lo requer “grande esforço”.

A secretaria de saúde, então, poderia investir em informação junto aos motociclistas (meios de comunicação em massa ou outra campanha) na tentativa de reverter a situação identificada, tentando aumentar o grau de intenção dos motociclistas para usar o capacete. Para isso, poderia estimular a atitude positiva e a pressão social para usá-lo, além de tentar fazer os motociclistas perceberem que eles têm – e podem – exercer o controle, e que é prático usar o capacete.

Além das campanhas, outras estratégias devem ser pensadas e implementadas em conjunto, visando a influenciar a intenção e os seus determinantes. O aumento da fiscalização, por exemplo, pode produzir impacto nas pessoas e, consequentemente, aumentar a pressão social. A promoção de cursos de atualização pode influenciar positivamente na atitude de usar capacete. Disponibilizar estacionamentos públicos com guarda-volumes pode ajudar na percepção de controle sobre o comportamento, uma vez que guardar o capacete adequadamente ajuda a minimizar estas barreiras.

Em suma, se, por um lado, a dimensão social mantem muitos comportamentos de risco dos motociclistas; por outro, também pode ser usada em favor da segurança para influenciar comportamentos individuais, considerando a teoria do comportamento planejado como exemplo. Desconsiderar a dimensão social fará com que a intervenção preventiva tenha grande probabilidade de fracasso, o que tornará cada vez mais comum matérias jornalísticas semelhantes à do início do texto, em que os Franciscos do nosso país perdem a vida ou sofrem severamente as consequências dos acidentes de trânsito com sua motocicleta. 
 
[1] Nota: A matéria é fictícia, mas o conteúdo é baseado em um caso real.
 
Para saber mais:
Manstead, A. S. R. (1996). Attitudes and behaviour. In G. R. Semin & K. Fiedler (Eds.), Applied social psychology (pp. 3-29). London: SAGE.
 
Morais Neto, O. L., Montenegro, M. M. S., Monteiro, R. A., Siqueira Júnior, J. B., Silva, M. M. A., Lima, C. M., Miranda, L. O. M., Malta, D. C., & Silva Junior, J. B. (2012). Mortalidade por acidentes de transporte terrestre no Brasil na última década: Tendência e aglomerados de risco. Ciência & Saúde Coletiva, 17(9), 2223-2236. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/csc/v17n9/a02v17n9.pdf
 
Vasconcellos, E. A. (2008). O custo social da motocicleta no Brasil. Revista dos Transportes Públicos, 119/120, 127-142. Disponível em: http://apatru.org.br/arquivos/%7B119C97E2-4817-4324-B4C8-978DC4F1A446%7D_revista-da-antp-119-20-artigo-eduardo-vasconcellos.pdf