Dar “dicas” ou fazer “provocações”?

postado em 25 de ago de 2012 06:14 por Fábio de Cristo   [ 7 de out de 2014 16:47 atualizado‎(s)‎ ]
Autor: Fábio de Cristo, psicólogo (CRP-17/1296), doutor em psicologia e pesquisador colaborador na Universidade de Brasília, onde desenvolve pós-doutorado sobre o comportamento no trânsito. Administrador do Portal de Psicologia do Trânsito (www.portalpsitran.com.br) e coordenador da Rede Latino-Americana de Psicologia do Trânsito. Autor do livro "Psicologia e trânsito: Reflexões para pais, educadores e (futuros) condutores".
 
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Fonte: http://kalvikalanjiam.com/english/what-know-our-company-interview-tips/
Ao final da uma entrevista, um jornalista pediu dicas sobre o que seus leitores deviam fazer para deixar o trânsito da cidade melhor. O entrevistado pensou um pouco e, por achar mais apropriado ao público, resolveu que, em vez de dar dicas, faria algumas provocações, isto é, colocaria questões para serem pensadas. Assim foi feito. A entrevista foi encerrada.

No dia seguinte, inconformado, o jornalista ligou novamente: “– Professor, muito obrigado pela sua colaboração; adorei as provocações. Entretanto, será que o senhor não poderia dizer algumas coisas práticas para o nosso leitor? Será que não podemos dizer para eles seguirem o código de trânsito...? O que o senhor acha...?”.

Pois bem, dar dicas ou fazer “provocações” são estratégias distintas que os formadores de opinião devem ter clareza para aplicá-las com proveito.

Dar dicas, por exemplo, fundamenta-se na seguinte ideia: se as pessoas conhecerem as normas de trânsito, logo se comportarão corretamente, de maneira segura. Todavia, nem sempre este raciocínio está correto, conforme demonstra o nosso tricampeão mundial de Fórmula 1 (e veja também a foto do carro da polícia estacionado em local proibido). 

http://www.bemparana.com.br/noticia/211190/cultura-revitalizacao-do-guaira

As dicas têm a sua importância, especialmente quando relacionadas a situações menos frequentes ou procedimentos com maior nível de complexidade, como, por exemplo, instalar a cadeirinha infantil e prestar os primeiros-socorros ao acidentado. Estas situações são incomuns para muita gente e, portanto, dicas e instruções são bem-vindas. Todavia, quando são elementares ou muito gerais – como, “dizer que eles sigam o código de trânsito” –, dependendo do nível de conhecimento do público a que se destinam, as dicas podem não ser atrativas, motivadoras. Em suma, não agregarão conhecimento por que as pessoas que as recebem serão indiferentes. Além disso, não raro, elas produzem uma reação aversiva. Quem já não ouviu ironias do tipo: “– Oxente, e precisava de um especialista só pra dizer isso?!”. 


É oportuno reconhecer que, de fato, muitos cidadãos já sabem o que fazer – se não fazem, são por outras razões. A legislação de trânsito no Brasil tem mais de 100 anos de existência. Nesse período, três códigos ajudaram organizar nossos deslocamentos (1941, 1966 e 1997). Muitas regras foram naturalmente incorporadas no nosso cotidiano, seja por meio das aulas na escola ou autoescola, seja por meio das experiências cotidianas... Talvez por isso, as dicas soem, às vezes, como se quiséssemos “ensinar o padre a rezar missa” ou “ensinar o 'padre-nosso' ao vigário”, como se diz popularmente. Até quando, então, os formadores de opinião e alguns de nós, ditos especialistas, continuaremos subestimando a inteligência das pessoas?

A estratégia da “provocação”, por sua vez, no melhor sentido da palavra, se refere, aqui, a promover, a estimular, a motivar alguma reação positiva que se reflita no comportamento no trânsito. Sua importância reside, por exemplo, na possibilidade de produzir, de modo eficiente, uma incompatibilidade ou inconsistência entre uma nova informação e o que o leitor conhece ou faz. Na psicologia, tal inconsistência é chamada de dissonância cognitiva. (A psicologia tem palavras complicadas mesmo).

Dito de outra maneira, assim como a fome faz com que busquemos saciá-la, nós também temos a tendência de buscar resolver a dissonância estabelecida entre o que pensamos e sentimos ou entre o que acreditamos e fazemos.
Na narrativa acima, é possível argumentar que o jornalista entrou em dissonância, quer dizer, em conflito consigo por que as informações que ele recebeu (provocações) não eram as que ele almejava (dicas). Um desconforto psicológico, então, foi estabelecido, motivando a busca para reduzi-lo ou eliminá-lo. Resultado: ele agiu; ligou novamente no dia seguinte. Era mais ou menos essa reação que o entrevistado esperava dos leitores, após lerem suas provocações: que eles se sentissem motivados a mudar, e mudassem realmente. O jornalista não compreendera a tática ou subestimara sua eficiência.

A provocação pode ser mais interessante do que as dicas, especialmente nos tempos atuais, em que as pessoas estão cada vez mais escolarizadas, conhecedoras dos seus direitos e, portanto, com a capacidade crítica mais aguçada.

Os jornais cumprem um papel esclarecedor importante sobre o comportamento no trânsito. Nesta seara, a dissonância cognitiva tem um valor que não deve ser desprezado. Se bem compreendida e empregada, a dissonância pode ser capaz de produzir autorreflexão e fazer as pessoas se esforçarem para buscar coerência rumo ao comportamento seguro no trânsito.

Amigo leitor, diante do que foi dito, peço agora que tente construir sua resposta sobre qual é a melhor estratégia: dar “dicas” ou fazer “provocações”? (Sim, estou tentando deixá-lo em dissonância!).


Para saber mais:
Festinger, L. (1957). A theory of cognitive dissonance. California: Stanford University Press. Disponível parcialmente aqui.