Planejando o comportamento de NÃO beber e dirigir

postado em 23 de fev de 2012 07:56 por Fábio de Cristo   [ 7 de out de 2014 16:46 atualizado‎(s)‎ ]
Autor: Fábio de Cristo, psicólogo (CRP-17/1296), doutor em psicologia e pesquisador colaborador na Universidade de Brasília, onde desenvolve pós-doutorado sobre o comportamento no trânsito. Administrador do Portal de Psicologia do Trânsito (www.portalpsitran.com.br) e coordenador da Rede Latino-Americana de Psicologia do Trânsito. Autor do livro "Psicologia e trânsito: Reflexões para pais, educadores e (futuros) condutores".
 
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Hoje em dia, dificilmente, as pessoas desconhecem os riscos, tanto para si quanto para os outros, de ingerir bebida alcoólica e conduzir um automóvel ou motocicleta. Dificilmente, elas também desconhecem que este comportamento é uma infração ao código de trânsito. Caso seja pego numa fiscalização, o motorista alcoolizado terá uma grande dor de cabeça, pela ressaca física ou moral, pela perda de tempo e pelos custos financeiros – multa atualmente de R$ 957,70, suspensão do direito de dirigir por doze meses, retenção do veículo até que chegue um condutor habilitado e recolhimento da habilitação.
 
Não beber e dirigir, em alguns casos, é um comportamento bastante desafiador, necessitando planejamento para obter sucesso. Mas, é possível planejá-lo? Sim, é possível fazê-lo, a fim de dirigirmos em paz, com segurança e em conformidade com a lei. Contudo, para elaborar e executar este plano, é necessário ter consciência de, pelo menos, três elementos que estão em jogo influenciando nossa intenção e comportamento.
 
Com o aumento da fiscalização, do rigor da lei e das possíveis consequências punitivas, muitas pessoas têm desenvolvido atitude favorável ao ato de “não beber e dirigir”, embora o comportamento ainda seja pouco valorizado socialmente. Esta avaliação positiva sobre o não beber e dirigir, associado a uma avaliação negativa das consequências de ser pego embriagado, é um primeiro elemento importante que influencia nossa intenção. É o nosso despertar crítico para a situação, e um sinal de mudança de nossa parte.
 
 
O segundo elemento importante é a pressão social, geralmente exercida pelos amigos para ingerir bebida alcoólica. Mas, por que os amigos são tão decisivos na nossa motivação e até no comportamento? Em geral, temos muita estima, respeito e admiração pelos amigos. Eles nos orientam, riem e choram com a gente. Conhecem nossos jeitos, aspirações, problemas. Os amigos são aquelas pessoas importantes para nós e fazem a vida valer a pena. É natural, portanto, querer comportar-se conforme achamos que mais agradaria eles, ou seja, acompanhando-os na cerveja. Isto, por sua vez, interferirá na nossa vontade de tentar e na quantidade de esforço que planejamos manifestar para realizar o comportamento.
 
Resistir, portanto, à influência deles é um dos grandes desafios para muitos motoristas e motociclistas que saem para um barzinho ou uma festa. Em 70% dos casos, os amigos conseguem diminuir nossa intenção de não beber... Tudo bem, em 99% dos casos! É por isso que as propagandas de cerveja usam encontros entre amigos para vender bebida. Se identificarmos e administrarmos com habilidade esta pressão, possivelmente não fracassaremos minutos depois da chegada ao bar.
 
Quando dizemos “– Não!”, o amigo, em geral, fica frustrado, perguntando logo: “– Num vai beber por quê?”. A pergunta tem sua lógica, afinal, supostamente, estaríamos ali pra beber. Portanto, é isso que se espera de nós: que bebamos. Ademais, foi um gesto tão caloroso e espontâneo... Por qual razão negaríamos uma cervejinha, contrariando-os logo na chegada?
 
Tem amigo também que, antes mesmo de justificarmos, ele já responde com ar provocativo o que havia perguntado, tentando avaliar e diminuir o nosso grau de motivação para não beber. Sabemos como eles são bons nisso (veja um exemplo de propaganda de cerveja aqui).
Eles fazem pressão mesmo. Alguns argumentos para nos convencer são leves (mas bastante eficientes), como: “– Vai esquentar a cerveja!”. Outros podem ser mais fortes, mexendo com a nossa coragem, dizendo: “– Rapaz, num lhe conheci fraco assim, sem beber!”, ou apelam para a amizade de longa data: “– Tome só essa, em nome da nossa amizade, vai...”. É fundamental, portanto, resistir a essas pressões.
  
O terceiro elemento que torna os amigos tão decisivos na nossa intenção e comportamento é a percepção de controle. É importante percebermos que temos ou podemos ter o controle sobre nosso comportamento, e, mais importante, que podemos exercê-lo no momento oportuno, aumentando a probabilidade de concretização da nossa intenção de não beber.
 
O controle sobre o comportamento está conosco, ou seja, dependa da gente. Podemos, assim, impedir educadamente que o copo seja cheio de cerveja, colocando a mão em cima dele; se este já estiver cheio, podemos afastá-lo, agradecer pelo gesto e pedir um refrigerante, água ou suco.
 
Em algumas situações, todavia, por mais que o controle esteja conosco, acreditamos que é muito difícil dizer “– Não, obrigado! Não vou beber”, antes que o amigo encha o copo americano com o “precioso” líquido. Nestes casos, o nosso controle percebido sobre o comportamento é baixo. A consequência disso é que, se os “obstáculos” para resistir são percebidos como muito grandes, nos esforçaremos pouco para não beber.
 
Se conseguirmos, então, administrar bem os momentos que dizemos “não” (incluindo as várias vezes que temos de dizê-lo numa mesma ocasião), como também as reações dos amigos, nós teremos alguma esperança de conseguir, de fato, não beber. Em suma, nossos amigos podem ter a “força”; mas nós também temos a “fraqueza”.
 
Amigo leitor, o comportamento de não beber e dirigir pode ser planejado. Então, planeje-o antes de sair conduzindo automóvel ou motocicleta para onde vai rolar bebida alcoólica. Este comportamento dependerá, em grande medida, tanto do controle que você percebe ter quanto do grau da sua intenção de realizá-lo.
 
A intenção de realizar o plano, por sua vez, dependerá de três elementos, ou seja, será maior quando a sua avaliação sobre as consequências do seu comportamento de não beber e dirigir forem consideradas positivas (atitude); quando, segundo a sua avaliação, a pressão dos seus amigos, naquele momento, não exercer tanta influência (pressão social); e, finalmente, quando você perceber que tem controle sobre este comportamento (percepção de controle)... 
 
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– Alô!
– E aíííí, meu amiiiigo! Tudo bem?
– Vinícius?! Nããão acredito! Tudo ótimo! E você?
– Tudo jóia! Escuta, tenho uma novidade! Tô de casa nova, e morando de frente pro mar! Quero te convidar para conhecê-la, pode ser hoje à noite?
– Claaaaro! Será um prazer.
– Perfeito! Quando você vier pra cá de carro mais tarde, lembre-se de trazer seu violão, ok? Faremos um sonzinho. Outra coisa, estou indo ao supermercado preparar tudo. Você vai querer beber o quê, vinho ou cerveja?
– ... 
 
Para saber mais:
1. Åberg, L. (2001). Attitudes. In P.-E. Barjonet (Ed.), Traffic psychology today (pp. 119-135). Norwell: Kluwer Academic Publishers.
2. Ajzen, I. (1991). The theory of planned behavior. Organizational Behavior and Human Decision Processes, 50, 171-211.
3. Brasil. (2008). Lei nº 11.705, de 19 de junho de 2008. [Dispõe sobre as restrições ao uso de bebidas alcoólicas]. Recuperado em 19 de fevereiro 2012, de http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2008/Lei/L11705.htm
4. Parker, D., Manstead, A. S. R., Stradling, S. G., Reason, J. T, & Baxter, J. S. (1992). Intention to commit driving violations: An application of the theory of planned behavior. Journal of Applied Psychology, 77(1), 94-101.