Como Promover Segurança no Trânsito?

postado em 24 de ago de 2011 21:35 por Fábio de Cristo   [ 7 de out de 2014 16:52 atualizado‎(s)‎ ]
Autor: Fábio de Cristo, psicólogo (CRP-17/1296), doutor em psicologia e pesquisador colaborador na Universidade de Brasília, onde desenvolve pós-doutorado sobre o comportamento no trânsito. Administrador do Portal de Psicologia do Trânsito (www.portalpsitran.com.br) e coordenador da Rede Latino-Americana de Psicologia do Trânsito. Autor do livro "Psicologia e trânsito: Reflexões para pais, educadores e (futuros) condutores".
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Palestra proferida em outubro de 2007 para funcionários de uma empresa que lida com transporte, por ocasião da semana interna de prevenção de acidentes de trabalho.

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Os automóveis têm contribuído decisivamente no desenvolvimento das sociedades, aumentando a capacidade e a rapidez da locomoção das pessoas, da comercialização de produtos, conhecimentos, tecnologias e cultura. Todavia, observam-se sérias conseqüências negativas, principalmente, nas questões ambientais e de saúde pública, gerando altos custos sociais e sofrimentos incontáveis para os envolvidos. Nesse sentido, o trânsito é considerado uma problemática das mais importantes do século XXI.

Esses aspectos negativos têm gerado demandas para os órgãos responsáveis pelo trânsito, empresas de transporte e profissionais que lidam nesse campo. Uma pergunta comum a todos esses envolvidos é: como promover segurança no trânsito?

Esta é uma tarefa das mais difíceis e que deve ser desempenhada de forma constante, não apenas em campanhas na semana nacional de trânsito ou na semana de prevenção de acidentes, isto porque muitos são os fatores internos e externos aos indivíduos que estão interagindo, determinando comportamentos que ameaçam a segurança e produzindo acidentes.

Nesta oportunidade, irei comentar alguns fatores individuais, por considerar que, tendo consciência deles, os motoristas podem melhor refletir sobre sua própria conduta e modificá-la. Eventualmente, comentarei um pouco como pode a empresa facilitar e estimular este processo de reflexão e mudança.

Na busca dos porquês da ocorrência de comportamentos de risco (entendendo comportamento de risco como condutas ao volante que aumentam as chances da pessoa se envolver em acidentes, por exemplo: dirigir em velocidade, costurar no trânsito, não sinalizar as ações ao volante etc.), dois aspectos têm influência e devem ser levados em consideração na segurança no trânsito, são: o “saber” e o “querer”.

Os comportamentos de risco, podem ser considerados, com as devidas limitações, resultantes de falhas no processo de “saber se comportar” e “querer se comportar”.

Assim, nesses breves minutos que me foram confiados, pretendo possibilitar a vocês a compreensão desses dois termos (saber e querer) e a importância de aliá-los para promover a segurança no trânsito.

O primeiro ponto a ser abordado, o saber.

O conhecimento das leis e resoluções de trânsito e os porquês delas existirem, é uma tarefa básica para todos que circulam e uma responsabilidade de quem dirige.

Infelizmente, muitas das transgressões às normas de circulação e dos acidentes de trânsito, ocorrem em função do não conhecimento do que é ou não permitido fazer.

Numa rápida enquete, poderíamos perguntar aqui: quem já leu o código de trânsito? Há quanto tempo?

O código de trânsito brasileiro estabelece a forma como devemos nos comportar no ambiente do tráfego. Nele, estão contidas as condutas a serem tomadas ou evitadas. Apesar de fazer parte do nosso papel enquanto profissionais do trânsito procurarmos estar informados sobre a legislação, parece ser cada vez mais raro e distante da realidade aqueles que lêem o código.

Parece ser essencial também que as empresas que lidam com transporte estimule o estudo da legislação e ofereçam treinamentos e atualizações sobre os conhecimentos na legislação. Ações desse tipo deveriam fazer parte da cultura dessas organizações.

Nesse momento, é oportuno chamar a atenção para um aspecto importante: o código de trânsito estabelece apenas a forma como devemos nos comportar no ambiente do tráfego, mas não estabelece as razões pelas quais essas normas foram estabelecidas.

Discutir as razões é um dos papéis da educação para o trânsito, que deveria abordar diversos temas do trânsito, relacionando-os, através de linguagem simples, situações cotidianas da realidade do motorista, construindo um espaço para informar, esclarecer e despertar o senso crítico.

Entretanto, o que se observa é a simples memorização do que é certo ou errado. Se perguntarmos para um condutor o porquê de determinada norma, ele dirá, provavelmente, que é por conta da lei, que assim manda, ou por conta da multa que deve ser evitada, e não porque torna a sua conduta ao volante menos arriscada e mais segura.

Desse modo, o conhecimento da norma e da justificativa de sua existência pode ser o primeiro passo para que ela seja cumprida.

Agora temos um porém...

Se, por um lado, o saber é um primeiro e importante passo para o comportamento seguro, por outro, é interessante reconhecer que saber das normas de circulação e das justificativas de sua existência não garante que as pessoas se comportarão adequadamente.

Chegamos, então, ao segundo ponto, o querer.

O querer se comportar é outro elemento fundamental, sem o qual não será possível o trânsito livre dos acidentes.

O querer é uma tendência ou inclinação da pessoa a manifestar um determinado comportamento.

O fato de sabermos, mas não querermos nos comportar de determinada forma está presente em toda a nossa vida de modo bastante marcante.

É sabido, por exemplo, que é importante usar equipamentos de proteção individual em alguns trabalhos de risco, no entanto, muitos são os casos de acidentes de trabalho que teriam sido facilmente evitados se isso fosse levado
em conta. No trânsito, não é diferente.

Sabemos que é proibido falar ao celular dirigindo, não utilizar o cinto de segurança ou o capacete, passar no sinal vermelho, conduzir o veículo alcoolizado, circular em velocidade alta para o trecho, estacionar em local proibido etc., mas, mesmo assim, nos comportamos inadequadamente em alguns momentos.

Mas, se a segurança é bom para todos, porque, em algumas situações, as pessoas não querem se comportar adequadamente?

Muitas são as razões para isso, mas a motivação para correr riscos pode ser é uma das prováveis explicações.

O fato é que nós aceitamos correr mais ou menos riscos dependendo da situação a qual estamos vivenciando no momento e dos benefícios que estão em jogo e podem ser obtidos.

De acordo com esse raciocínio, checamos continuamente a quantidade de risco a que sentimos estar expostos e comparamos com a quantidade de risco que estamos motivados a aceitar para que nossos ganhos sejam maximizados na situação.

Em função desse “cálculo”, se assim podemos chamar, entre o nível de risco percebido e o nível de risco aceito, ajustamos o nosso comportamento, agindo, conseqüentemente, de modo mais ou menos arriscado.

Quantas vezes não passamos por diversas situações de perigo (ou mesmo de acidente) por aceitar um maior nível de risco para aproveitar ao máximo as nossas habilidades, a potencia do veículo ou a agilidade que ele possui?

Devemos sempre procurar refletir sobre a nossa motivação para o risco no ambiente do tráfego, pois, muitas vezes, sabemos o que é certo e errado, mas, mesmo assim, agimos equivocadamente para maximizar os próprios benefícios, sejam eles financeiros ou afetivos.

O problema, todavia, não reside em querermos nos beneficiar ou aproveitar as possibilidades, o que, aliás, é, até certo ponto, racional e justo. O problema reside quando nosso benefício ocorre em prejuízo dos demais, através da exposição dos outros usuários ao perigo.

Realizar uma análise constante da nossa motivação para o risco é fundamental. Para isso algumas perguntas podem ajudar, por exemplo: Qual a quantidade de risco que estou disposto a correr neste momento? Por que? Não será a hora de esperar mais um pouco ou ir mais devagar? Vale a pena eu me expor tanto e expor meus passageiros?

As empresas, por sua vez, podem incentivar os funcionários para que eles se motivem para o comportamento seguro e queiram cada vez mais manter um padrão de comportamento saudável. Incentivos financeiros e/ou sociais têm sido usados com sucesso em outros países.

Finalizando, gostaria de retornar ao tema proposto: “como promover segurança no trânsito?”. A resposta à essa pergunta não é simples, ao contrário. Todavia, podemos começar a ensaiar uma resposta investindo esforços freqüentes e sistemáticos através de eventos como este, estimulando e semeando o saber e o querer dos profissionais do trânsito. A partir disso, espero que vocês possam desenvolver uma atitude de reflexão sobre suas próprias condutas no trânsito.
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